Diário de um Professor

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Divagando sobre pontos

Divagando sobre pontos

 

 

Divagando sobre pontos...

(Introdução de Relatório de estágio da disciplina de Prática de Ensino do curso de Artes Visuais da PUCCAMP em 2003)

 

Um ponto na parede é um ponto na parede!”- esta talvez seja a resposta mais correta ou conveniente .

É uma resposta objetiva, precisa, evita discussões...não nos leva ao ridículo e não ultrapassa os parâmetros da razão. Um ponto é um ponto para a coerência, porém para a criança ele é um universo que precisa ser sondado, degustado até seu completo esgotamento.

Um ponto na parede pode ser um peixe solitário perdido no mar, ou um pedaço de minha sombra que ficou gripada e acabou perdendo uma lasquinha da sua forma escura.

Um ponto pode ser uma formiga e esta criaturinha pode se transformar na minha melhor amiga.

Na verdade ela é uma formiga mágica que protege todas as crianças de bruxas, vampiros e qualquer outro personagem de terror.

Ela nos ensina a não ter medo de escuro , pois o pedaço da minha sombra é um pouquinho de escuro na parede.

O escuro total é um mundarél de pedaços de sombras , um exército de formigas mágicas que nos protege de todos os perigos.

Assim aprendemos a não ter medo do escuro, por que no escuro-neste ballet dionisíaco  entre sombras e formigas mágicas- eu não estou tão só.

Então surge a idéia: desligar o sol para brincar com estas formigas. Se eu apertar o interruptor o sol apaga?

Este é o ponto de vista de uma criança, que vivencia sua fantasia com sua cabeça à quilômetros de distância , com suas mãos que gesticulam no ar para tentar explicar o que é um mundarél, tendo no cantinho do lábio irresponsável um sorriso maroto, e nos olhos grandões e brilhantes  uma porta aberta para o mundo.

Olhos que se confundem com bocas , devido ao sorriso de sincera gratidão que se projeta  ao presenciar uma cena divertida.

O universo da criança está permeado de descobertas, de signos e situações que são responsáveis pela construção de seus conceitos e de suas buscas. Buscas tão sérias quanto as necessidades de um adulto, com problemas que precisam ser resolvidos, barreiras que precisam ser transpostas , projetos que precisam ser iniciados e concluídos.

Entre estes pequeninos há um conjunto de valores éticos, de símbolos  e uma estrutura de relacionamento que nos leva a pensar numa “sociedade infantil” inserida na sociedade do mundo.

 Um grupo de crianças é uma comunidade de investigação, onde juntos tem o objetivo de beber o máximo da  curiosidade.

Não há comparação entre os problemas de um adulto e uma criança, pois estes celeumas devem ser considerados dentro dos critérios de ambas as sociedades, sem subtrair o peso de cada experiência.

Uma amizade traída, um brinquedo roubado ou uma ofensa- chulezento, cabeça de melão, ou dizer que a mãe do outro é banguela- pode causar  muito sofrimento nestes corpinhos tão ávidos de tudo.

Onde se processa esta sociedade infantil?

Em vários lugares:  na rua brincando com os vizinhos, ou num Domingo aos finais de semana na casa da avó ,na escola , enfim,  onde existem crianças diferentes, com experiências para trocar.

Uma sociedade infantil precisa de espaço para falar sobre os assuntos que lhe são inerentes, para aprender através da linguagem do jogo, para serem tratados como crianças.

Então o único jeito de estar próximo a esta sociedade infantil, para ajudá-la a pertencer a sociedade do mundo é se aproximando deste universo e aprendendo a divagar sobre pontos.

 

Raphael do Lago Júdice

Pedagogo e Arteteapeuta.