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Novas formas de ler e contraler o mundo

Novas formas de ler e contraler o mundo

 

NOVAS FORMAS DE LER E CONTRALER O MUNDO

 

            Os aspectos econômicos, tecnológicos, científicos e ambientais se tornam agentes construtores dos valores de uma época. Estes valores delimitam a forma de ler e contraler o mundo.         

            Demo em seu livro “O Porvir-desafio das linguagens do séc.XXI” da Editora IBPEX de Curitiba, 2008,no texto abaixo conceitua o ato de ler e contraler o mundo.

O desafio social da leitura detém como nódulo central, a habilidade da contraleitura porque é com ela que podemos, com base na habilidade de brandir a autoridade do argumento, não só ir além do argumento de autoridade, mas principalmente cultivar o saber pensar para melhor intervir. Ler significa tanto compreender os significados quanto atribuir significados alternativos ao mundo emergindo o leitor/autor. (DEMO, 2007, p. 23)

            Lemos e contralemos a sociedade em que vivemos e somos educados. A sociedade é conceituada a partir dos modos de produção e de trabalho com o qual o homem intervém no meio natural. Podemos citar como exemplo deste conceito, a descrição que Ponce faz em seu livro “Educação e luta de classes” da Cortez editora,São Paulo,2000,  sobre  a comunidade primitiva e sua forma de educação .

Coletividade pequena, assentada sobre propriedade comum da terra e unida por laços de sangue, os seus membros eram indivíduos livres,com direitos iguais, que ajustaram suas vidas às resoluções de um conselho formado democraticamente por todos os adultos homens e mulheres da tribo. O que era produzido em comum era repartido com todos e imediatamente consumido.O pequeno desenvolvimento dos instrumentos de trabalho impedia que se produzisse mais do que o necessário para a vida cotidiana e, portanto ,a acumulação de bens. (PONCE, 2000, p. 17)

            Esta sociedade conduzia a uma  determinada forma de ler e contraler o mundo descrito pelo autor no texto abaixo.

As mulheres estavam em pé de igualdade com os homens, e o mesmo acontecia com as crianças. Até os 7 anos de idade a partir do qual já deviam viver as suas próprias expensas, as crianças acompanhavam os adultos em todos os seus trabalhos, ajudavam-nos na medida de suas forças e, como recompensa, recebiam a sua porção de alimentos como qualquer outro membro da comunidade. A sua educação não estava confinada a ninguém em especial, e sim à vigilância difusa do ambiente. (PONCE, 2000, p. 18)

            Assim como Ponce descreve a sociedade primitiva, o texto abaixo, retirado do Portal Educação referente ao curso “Educação infantil: características e singularidades”, São Paulo, 2011, faz uma referência aos valores que regem a sociedade capitalista, globalizada, tecnológica e consumidora do séc. XXI, e nos dá um breve direcionamento das novas formas de ler e contraler a realidade.

A virada do séc. XX para o séc. XXI é marcada pelo montante de mudanças ocorridas e pela velocidade de descobertas. Nunca se descobriu tanto em tão pouco tempo. Podemos dizer que nesse período houve mais inovações nos mais diversos setores do que em todos os séculos anteriores juntos, construindo assim uma nova realidade nas diversas civilizações ocidentais. Os avanços tecnológicos juntamente com o desenvolvimento da imprensa e da comunicação cada vez mais rápida e ágil deram ao homem do início do séc. XXI um novo perfil. A globalização aproximou nações enquanto os grupos se reuniram em pequenos setores para lutar por seus direitos. A política, até então grande dominadora do mundo rendeu-se também as regras ditadas pela economia. (...) Com o grande avanço tecnológico e comunicativo, a população do novo século está diante de novas buscas, de novos anseios, de uma nova realidade. (PORTAL EDUCAÇÃO ,2011,p.7-8)

Terminada esta contextualização é possível começar a diagnosticar a forma como lemos e contralemos o mundo, no século XXI, em uma sociedade capitalista, globalizada,consumidora e tecnológica, através do  prisma da novas formas de Tecnologia de informação e comunicação .Brito e Purificação em seu livro  “ Educação e novas Tecnologias,um repensar” da editora IBPEX de Curitiba,2008,  nos fala no texto abaixo sobre o contexto social mediado principalmente pelas TICs através do advento da internet.

A internet é uma gigantesca rede interconectada por milhares de diferentes tipos de redes, que se comunicam por meio de uma linguagem em comum (protocolo) e um conjunto de ferramentas que viabiliza a comunicação e a obtenção de informações. Nela, qualquer usuário conectado pode estar em contato com o mundo. (BRITO & PURIFICAÇÃO, 2008, p.102)

 

O contato com a internet viabilizou de forma estrondosa a circulação de informação, favorecendo o imediatismo, destruindo barreiras, destruindo hierarquias, e criando possibilidades infindáveis de criação e autoria. Agrega-se à essa nova ferramenta novos códigos pertencentes à uma nova linguagem, enfatizando o estímulo sensorial. Citando Edigar Moran, Brito e Purificação nos fala sobre a explosão da internet e suas consequências.

A internet está explodindo como a mídia mais promissora desde a implantação da televisão. É a mídia mais aberta, descentralizada e, por isso mesmo, mais ameaçadora para os grupos políticos e econômicos hegemônicos. Aumenta o número de pessoas e grupos que criam na internet suas próprias revistas, emissoras de rádios ou de televisão sem pedir licença ao estado ou a estar vinculados a setores econômicos tradicionais. (BRITO & PURIFICAÇÃO, 2008, p. 107)

Seguindo este caminho do processo de leitura, compreendendo este como compreensão, construção e atuação no mundo, Pedro Demo, em seu livro “O Porvir, desafio das linguagens do séc.XXI” da editora IBPEX de Curitiba, 2007, citando Santaella , tenta traçar os perfis do leitor de nossa época: contemplativo, movente e imersivo.

O meditativo, é típico da sociedade pré-industrial, do tempo do livro impresso e da imagem expositiva, fixa. Nasce no renascimento e sobrevive bem até meados do séc. XXI. O segundo leitor, o movente, é parte do mundo em movimento e apresenta-se dinâmico, híbrido, misturando signos, filho da revolução industrial e das grandes cidades - um ser humano da multidão. Essas questões ligam-se á explosão do jornal, bem como ao horizonte reprodutivo da fotografia e do cinema, indo até a revolução eletrônica tendo seu apogeu na televisão. O terceiro leitor, o imersivo, assoma nos espaços novos e inovadores imateriais da virtualidade e representa a vertigens da leitura do momento atual. (DEMO, 2007, p.35)

Embora tenham surgido em momentos históricos diferentes, os três leitores coexistem em uma mesma época, sendo nossos alunos, em sua maioria, leitores imersivos. Estes três leitores acessam em si habilidades diferenciadas. Demo os caracteriza da seguinte forma:

  • · contemplativo - realiza uma leitura silenciosa, para si.
  • · movente - realiza uma leitura fragmentada e dispersa.
  • · imersivo - um leitor que realiza sua leitura baseada em uma experiência sensorial, construída por diversas linguagens que se sobrepõe e se complementam simultaneamente.

Demo ,ao citar  Santaella nos fala sobre um leitor implodido.

Trata-se de um leitor implodido, porque a subjetividade se liquidifica na hipersubjetividade de infinitos textos num grande caleidoscópio tridimensional, onde cada novo nó e nexo pode conter outra grande rede numa outra dimensão. (DEMO, 2007 P.38)

Este leitor implodido invade o contexto escolar na figura do aluno. Certamente com uma leitura tão plural do mundo, temos um aluno que apreende o mundo de uma forma diferenciada.  Demo nos relata isso no texto abaixo.

O ambiente de novas tecnologias informacionais alterou literalmente a configuração cerebral, indo ao encontro das pesquisas neurológicas, segundo as quais a estimulação insistente muda as estruturas do cérebro e afeta o modo como as pessoas pensam durante a vida toda. A plasticidade cerebral é muito mais marcante na infância, mas permanece em graus variados ao longo da vida humana, o que ocasiona reorganização permanente. (DEMO, 2007, p.50)

 

Mediante um perfil tão profícuo de linguagens certamente a escola precisa rever sua função. A instituição escolar só será capaz de dar conta deste novo leitor, caso deixe de ser um ambiente transmissor da cultura armazenada, para se tornar um ambiente de ressignificação capaz de  relacionar informações, com o intuito de ajudar o seu aluno a colocá-la em prática em sua vida.É preciso que a escola também se torne imersiva,porém de forma intencional e significativa. Brito & Purificação nos fala da educação do séc. XXI.

Pensar, refletir, analisar, discutir é o grande desafio que se apresenta aos educadores do séc. XXI no que diz respeito às possibilidades e resultados da utilização das novas tecnologias da informação e da comunicação no processo educacional, pois a educação do futuro é aquela que deve proporcionar a formação de cérebros para a cooperação, para a relação harmoniosa entre os seres que habitam nosso planeta (...) é aquela que prepara para a vida, para tomar decisões, para integrar conhecimentos. Trata-se de uma educação que prepara o indivíduo para agir, não apenas reagir: planejar e não apenas executar. E diríamos ainda: criar e desenvolver a intuição e a sensibilidade.(BRITO & PURIFICAÇÃO, 2008, p. 111)

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A complexidade pautando-se em uma postura que renega a fragmentação das áreas do conhecimento no ensino e aprendizagem, aqui é sugerida como uma forma de lidar com este leitor imersivo e implodido que invade o âmbito escolar.

Santos, em seu artigo “Complexidade e transdisciplinariedade em educação: cinco princípios para resgatar o elo perdido” da Revista Brasileira de Educação v. 13 n. 37 jan./abr. de 2008 , nos fala do surgimento da complexidade como paradigma epistêmico.

A Teoria da complexidade e transdisciplinariedade surgem em decorrência do avanço do conhecimento e do desafio que a globalidade coloca para o século XXI. Seus conceitos contrapõem-se aos princípios cartesianos de fragmentação do conhecimento e dicotomia das dualidades (Descartes, 1973) e propõem outra forma de pensar os problemas contemporâneos. (SANTOS, 2008, p.72 )

Desta forma podemos dizer que o conceito de complexidade abandona a linearidade do ensino e aprendizado, para construir uma teia intrincada de conhecimento. Não olhamos o objeto de nosso estudo de forma fragmentada, mas sim como um todo, interligado a outros fatores, considerando diversos aspectos e contextos, assim como suas contradições.

“A teoria da complexidade e transdisciplinariedade, ao propor a religação dos saberes compartimentados, oferece uma perspectiva de superação do processo de atomização.” (SANTOS,2008,p.73 )

 É preciso transformar o olhar especializado em um olhar contextualizado. Contextualizar talvez seja uma das grandes ferramentas de uma atitude complexa. Ao olharmos um dado inserido em um cenário de 360°, estamos percebendo o contexto onde este dado é percebido. O dado percebido se torna o núcleo, um foco, onde se ligam e interligam uma miríade de informações, situações e elementos. Contextualização esta inerente ao perfil do leitor imersivo.

A contextualização é necessária para explicar e conferir sentido aos fenômenos isolados. As partes só podem ser compreendidas a partir de suas inter-relações com a dinâmica do todo, ressaltando-se a multiplicidade de elementos interagentes que, na medida da sua integração, revela a existência de diversos níveis da realidade, abrindo a possibilidade de novas visões sobre a mesma realidade. (SANTOS, 2008, P.74)

O objeto de uma atitude complexa dentro da instituição escolar é a construção de sentidos através de um conhecimento transdisciplinar. Sobre o conhecimento transdisciplinar, Santos indica a multiplicidade das dimensões da realidade, comentado no texto abaixo.

O conhecimento transdisciplinar associa-se à dinâmica da multiplicidade das dimensões da realidade e apóia-se no próprio conhecimento disciplinar. Isso quer dizer que a pesquisa transdisciplinar pressupõe a pesquisa disciplinar, no entanto, deve ser enfocada a partir da articulação de referências diversas. Desse modo, os conhecimentos disciplinares e transdisciplinares não se antagonizam, mas se complementam. (SANTOS, 2008, P.75)

É uma educação que não se pauta na figura de um especialista em sala de aula, e sim em vários que se complementariam, como uma junta médica que avalia um paciente, porém de uma forma mais holística. Não mais uma sala de aula fechada e com lousa, mas um campo aberto de pesquisa.

Santos, pautando-se em Morin e Maturana apresenta em seu artigo 6 princípios da complexidade:

  • Princípio Holográfico
  • Princípio da transdisciplinariedade
  • Princípio da complementaridade dos opostos
  • Princípio da incerteza
  • Princípio da autopoiese (auto fazer-se)

O princípio holográfico é aquele que pressupõe que todas as áreas do conhecimento estão interligadas entre si. O todo está conectado com as partes, e as partes com o todo.

A visão holográfica abre nova perspectiva aos pesquisadores da área educacional. Não se trata somente de inverter o foco do binário parte-todo, mas de acrescentar o movimento de religação ao conjunto desmontado, à totalidade fragmentada. Trata-se de atuar em duas direções opostas: contexto e unidade simples (todo e parte), estabelecendo a interligação dinâmica. (SANTOS, 2008,p.73)

 

Desta forma o aprendizado ocorre através do estabelecimento de ligações e associações que enriquecem o olhar do observador em relação ao objeto estudado, através da ressignificação tão necessária à leitura imersiva.

Podemos entender em um primeiro momento, que a transdisciplinariedade, tem o sentido de algo que está além das disciplinas. O Transdisciplinar, partindo desta contextualização simplificada indica então o ir além das disciplinas, além do olhar especialista, além do padrão estabelecido, exatamente porque pressupõe a apreensão do objeto do conhecimento, através de um olhar capaz de ver o todo, e por isso deve se valer do conhecimento de várias áreas, que enriquecem a percepção do objeto de estudo.  A transdisciplinariedade acrescenta a oposição ao objeto de estudo, exatamente por compreender que um conceito só pode existir quando existe a sua oposição e esta acaba se tornando complementar.

Assim, a transdisciplinariedade significa transgredir a lógica da não contradição, articulando os contrários: sujeito e objeto, subjetividade e objetividade, matéria e consciência, simplicidade e complexidade, unidade e diversidade (...). Ao articular esses pares binários, por meio da lógica do terceiro termo incluído, a compreensão da realidade ascende a outro nível, tomando um significado mais abrangente e sempre em aberto para novos processos.(SANTOS, 2008,p. 75)

Entramos então no princípio da complementaridade de opostos, que pressupõe que aquilo que forma oposição complementa o processo. O movimento existe quando há conflito. Sem o conflito entre opostos reconhecido pelo desejo e pela necessidade, não haveria o movimento. A própria atividade de avaliação não ocorreria sem a oposição. É na oposição entre o idealizado e realizado, que existe a reflexão avaliativa daquilo que se propõe a conhecer.

Ao abordar o princípio da incerteza, Santos a coloca como algo inerente à condição humana, que a mercê do tempo e do dinamismo da vida, não pode construir certezas, justamente porque nenhum conhecimento é acabado. É somente uma pequena parcela de uma realidade que muda a todo instante.

E por fim o principio da auto-poiese que é a capacidade humana de se auto reconstruir e de seu auto reorganizar.

Santos , aplicando o conceito à educação, nos dá a chave para a utilização do paradigma  da complexidade, como uma ferramenta poderosa para desenvolver no professor esta atitude complexa, que contextualiza e não fragmenta o conhecimento, auxiliando o aluno, nosso leitor imersivo, a significar e ressignificar a intrincada teia de leitura que faz do mundo.

Na prática do magistério, tal conceito implica recorrer a uma metodologia que estimule os alunos a produzir o próprio conhecimento. A função docente passa a ser de facilitar diálogos com os saberes, respeitando- se a diversidade e as características de cada um dos participantes do processo educativo, aceitando- se cada aluno como um ser indiviso, com estilo próprio de aprendizagem e diferente forma de resolver problemas. (SANTOS,2008,p.79)

 

Neste processo alunos e professores precisam se tornar leitores e autores de seu próprio aprendizado. Talvez essa seja a necessidade mais emergente em nossa época, em busca de uma escola que promove uma leitura imersiva da vida,tendo como foco principal a construção de novos sentidos.

 (Trecho do artigo "AS NOVAS FORMAS DE LER E CONTRALER O MUNDO,INFLUENCIADAS PELAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO.", apresentado como pré-requisito para obtenção do título de licenciado em Pedagogia pelo Centro Universitário Uninter )

 

Raphael do Lago Júdice

Pedagogo e Arteterapeura

 

REFERÊNCIAS

 

BRITO, Glaucia da Silva; PURIFICAÇÃO, Ivonélia da . Educação e novas Tecnologias - um repensar. Curitiba, Editora IBPEX , 2008

DEMO, Pedro. O Porvir - desafios das linguagens do séc. XXI.Curitiba,Editora IBPEX ,2007.

PONCE, Aníbal. Educação e luta de classes. São Paulo,17ª edição , Cortez Editora ,2000.

PORTAL EDUCAÇÃO. Material do curso à distância de Educação infantil: características em Singularidade. São Paulo, 2011.

SANTOS, Akiko.Complexidade e transdisciplinariedade em educação: cinco princípios para resgatar o elo perdido. Revista Brasileira de Educação v. 13 n. 37 jan./abr. 2008, disponível em http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v13n37/07.pdf  acessado em 08/11/2010

SILVEIRA, Regina Célia Pagluichi.Uma contribuição para o estudo do ensaio científico avaliativo. Disponível em: http://w3.ufsm.br/revistaletras/artigos_r2/revista2_5.pdf acessado em 20/03/2010