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Psicomotricidade Relacional e Jogo Dramático

Psicomotricidade Relacional e Jogo Dramático

 

 

 

PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL E JOGO DRAMÁTICO

Segundo Vieira, em seu artigo “Psicomotricidade Relacional: a história de uma prática”, ( 2009 ) a psicomotricidade relacional:

É uma pratica que permite a criança, ao jovem e ao adulto, a expressão e superação de conflitos relacionais, interferindo de forma clara, preventiva e terapeuticamente, sobre o processo de desenvolvimento cognitivo, psicomotor e sócio-emocional, na medida em que estão diretamente vinculados a fatores psicoafetivos relacionais.

Apropriando-se dos conceitos da psicanálise, Lapierre, dentro do enquadramento da Psicomotricidade Relacional, define o corpo como um lugar.

Na visão de Lapierre este corpo se torna recurso relacional, pois é através dele, através de suas percepções interocepitivas, propriocepitivas e exterocepitivas, que irá criar a noção de mundo interno e mundo externo.

O sujeito propriocepitivo ao se deparar com suas experiências corporais de prazer e desprazer vai construindo e percebendo o limite de dentro e de fora, de si e do outro.

Segundo Lapierre ( 2010 p. 15) “É a partir das vivências corporais primárias que se constrói nosso psiquismo e se estrutura nosso inconsciente”.

 No decorrer de sua trajetória profissional, Lapierre começou a perceber o corpo como algo para além de um mecanismo funcional.

Começou a entender o corpo como um sujeito que emite uma mensagem, e por isso começou a desenvolver o processo de escuta.

“Era preciso reconhecer que o ser humano não se reduzia a essa biomecânica consertada. O sofrimento do corpo traduz, frequentemente, outro sofrimento.” (LAPIERRE, 2010, p. 24 )

Ao tomar consciência que mais importante que o tratamento, era a relação do terapeuta com seu cliente, a partir de um processo de empatia corporal, Lapierre cria uma metodologia própria, baseando-se  na observação do lúdico.

Ainda segundo o autor:

A partir de uma situação vivida no concreto, pode-se dela suscitar uma análise perceptiva, modificar certos parâmetros, transpô-la para outras situações, criar situações analógicas, e depois passar para o abstrato, procurando diversas formas de expressão: gestual, gráfica, pictórica, verbal. Todo este trabalho é baseado em uma pedagogia da descoberta. As crianças participam disso ativamente. ( LAPIERRE, 2010 , p. 29 )

Peter Slade reconheceu na ação da criança, um jogo genuíno, onde através da vivência lúdica, ela pode desenvolver os aspectos da sinceridade e da absorção: o jogo dramático.

Segundo Slade ( 1978, p. 12 ): “ O jogo dramático infantil é uma forma de arte por direito próprio; não é uma atividade inventada por alguém, mas sim um comportamento real do se humano”

É no ato do jogo dramático, onde a criança absorta na vivência lúdica atua de forma sincera e experimenta um campo relaxado, permitindo evidenciar suas questões internas, cujas soluções são apresentadas e vivenciadas no decorrer do próprio jogo.

Yozo, ( 1996, p.18 ) nos diz que:

O jogo dramático leva o indivíduo a soltar-se, liberar sua espontaneidade e criatividade, ou seja, é um meio de desentorpecer o corpo e a mente dos condicionamentos da vida atual, não permitindo a massificação dentro das conservas culturais. Além disso, é preciso que esteja em um campo relaxado para jogar, pois crescem as possibilidades de relações que permitem ao individuo alcançar um solução de seus conflitos, isto é, havendo ampliação do campo relaxado, diminui o ponto fixo de tensão. O indivíduo em campo tenso impede esta ampliação de resposta.

Segundo Slade, na prática do jogo dramático o professor assume o papel de “aliado amoroso”, abrindo espaço para aceitar a criança dentro das condutas esperadas ou não, através de sua narrativa interna expressa no corpo ou na palavra, estando o professor, ou mediador em estado absoluto de empatia, onde vivencia junto com a criança os aspectos da absorção e da sinceridade.

Slade, em sua metodologia abre espaço para o individuo e para o social, através das possibilidades do jogo projetado e do jogo pessoal.

Segundo o autor :

O jogo projetado é o drama no qual é usada a mente toda, mas o corpo não é usado totalmente. Usam-se os tesouros que assumem caracteres da mente ou se tornam parte do local onde o drama acontece. (...) O jogo pessoal é o drama óbvio: a pessoa inteira, ou eu total é usado. (...) No drama pessoal, a criança perambula pelo local e toma sobre si a responsabilidade de representar um papel. (SLADE, 1978, p. 19 )

No jogo projetado a criança pode se permitir ficar absorta consigo mesma, tendo o seu espaço protegido e isolado para ser sem interferência. Participa do jogo aquele que ela permitir entrar.

O jogo projetado é aquele em que a criança vivencia sua narrativa interna.

Tecendo uma relação com Lapierre, poderíamos dizer que no jogo projetado a criança vivencia suas necessidades de fusão, onde segundo o autor ocorre “uma vivência de uma relação de contato corporal regressivo com forte conteúdo afetivo.”(LAPIERRE , 2010, p.101)

A criança centrada em si mesma, absorta, projeta nos objetos ou no outro suas necessidades afetivas fusionais.

No Jogo pessoal a criança se mostra para o grupo sem subterfúgios. Ela assume as rédeas de sua expressão e se coloca frente ao social como um sujeito participante da grande engrenagem dramática.

Ela se mostra para vivenciar o grupo.

O jogo pessoal é aquele onde a criança de acordo com sua narrativa corporal se insere no grupo acrescentando elementos que contribuem para a narrativa grupal.

Dentro da metodologia de Lapierre, poderíamos afirmar que no jogo pessoal, a criança abre espaço para vivenciar seus estados de agressividade, entendendo este, segundo o autor como: “ a afirmação de si, na relação com o mundo e com os outros, sendo a agressão apenas um meio e não um objetivo.” (LAPIERRE, 2010, p. 88 )

Na construção da narrativa o professor ou mediador apenas liga os pontos daquilo que se evidencia de forma criativa e espontânea através das crianças.

Era uma vez um...

É da criança que surgirão os elementos que levarão à dramatização.

Em ambos os enquadramentos, da psicomotricidade relacional e do jogo dramático impera o suprir a necessidade da criança e a manifestação da aceitação destes conteúdos emergentes.

Na junção destas duas metodologias, uma verbal e outra não verbal, a criança é inserida dentro de um espaço relacional protegido onde ela pode expressar a Pessoa que ela é.

 De acordo com a fase maturacional em que se encontra, aliviando seus estados de tensão, pois compreende que é aceita pelo adulto.

Segundo Vieira,(2009), o espaço de aceitação construído pela pratica da psicomotricidade relacional se estabelece:

(...)  como um método de trabalho que proporciona um espaço de legitimação dos desejos e dos sentimentos no qual o indivíduo pode se mostrar na sua inteireza,com seus medos, desejos, fantasias e ambivalências, na relação consigo mesmo, com o outro e com o meio, potencializando o desenvolvimento global, a aprendizagem, o equilíbrio da personalidade, facilitando as relações afetivas e sociais.

Slade em seu jogo dramático (1978, p.25 ) nos coloca que:

As coisas feitas em favor da criança devem ser feitas para as suas reais necessidades e não por um capricho sentimental dos pais.É preciso encontrar um equilíbrio de afeição para que a criança não seja avassalada pela emoção em dado momento e militantemente repelida no momento seguinte.

O fato de ser aceita pelo o adulto sem julgamentos promove o alívio de tensão, e consequentemente aumenta sua capacidade de adaptação aos desequilíbrios promovidos pela aprendizagem seja esta formal ou informal.

Segundo  Lapierre  (2010, p. 16 ):

Os comportamentos da criança, e especialmente os mais autênticos, os menos “culturais”, despertam um eco no adulto, envolvem-no pessoalmente, provocam respostas nem sempre conscientes e nas quais ele expressa seus próprios problemas. Não levar em conta este aspecto da relação é uma atitude cômoda, confortável para o adulto, mas que elude uma parte essencial do problema da educação. Tentamos instaurar, entre nós e a criança um diálogo autêntico não mediado por um jogo de papéis, pedagógico ou educativo, mas uma relação de pessoa a pessoa, na qual a criança tinha a possibilidade de exprimir suas fantasias e de libertar suas pulsões, mesmo as agressivas- com o máximo de permissividade e o mínimo de proibições.

A vivência do lúdico sem restrições, tendo as necessidades manifestas através do ato psicomotor, do ato simbólico, tendo como lei: “sem se machucar e sem machucar o outro.”

André Lapierre utiliza como recursos para a construção vincular com a criança objetos transacionais que tem a função de mediar as relações da criança entre o mundo interno projetado e o mundo externo percebido, através do jogo espontâneo.

Slade também o faz utilizando em sua metodologia todo fator externo ou que se externalize como um recurso para a construção narrativa: um som, um objeto, uma expressão, um movimento, uma imagem.

Desta forma ao aproximarmos as duas metodologias, podemos ampliar os recursos de expressão e de relação das crianças.

Segundo Le Boulch em seu livro “Educação psicomotora: a psicocinética na idade escolar”- Artmed-1987, o objetivo da educação psicomotora é permitir com que a criança passe de um estado onde seu corpo é reprodutor para um corpo antecipador.

O autor nos diz que esta transição ocorre conforme a criança vai se apropriando do universo da linguagem e da simbolização:

Um dos aspectos que o trabalho psicomotor assumirá durante o período escolar será, precisamente, o de fazer com que a criança passe da etapa perceptiva à fase da representação mental de um espaço orientado tanto no espaço como no tempo. Para isto as imagens a princípio reprodutoras e depois antecipadoras serão o prolongamento das ações vividas e analisadas depois no plano perceptivo, simbolizadas enfim no modo verbal e no modo gráfico. (LE BOULCH, 1987, p.35)

Favorecer o crescimento em espiral, para que a criança se construa, usando as nomenclaturas de Le Boulch, do corpo vivido em direção ao corpo operatório, antecipador, através de um espaço protegido e lúdico (psicomotricidade relacional e jogo dramático) onde a criança possa suprir suas necessidades de forma verbal ou não verbal, é um caminho para uma transição mais funcional e tranquila.

É neste ponto, no encontro entre o reconhecimento do desejo e a nomeação através da linguagem, que Lapierre e Slade se encontram.

Segundo Slade (1978, p. 18):

No drama, no fazer e lutar, a criança descobre a vida e a si mesma, através das tentativas emocionais e físicas e depois através da prática repetitiva que é o jogo dramático. As experiências são emocionantes e  pessoais e podem se desenvolver em direção as experiências do grupo.

Prandini (2010, p. 34 ) ,sobre o desenvolvimento infantil nos diz que:

O desenvolvimento, (...) não se dá de maneira linear e contínua, em que as funções vão se amalgamando, mas é um processo constituído por oposições, oscilações, avanços e retrocessos em que, a partir da acumulação quantitativa de funções, do conflito entre as funções já estabelecidas e emergentes, se dá uma transformação qualitativa da pessoa e uma nova configuração de integração se impõe.

A forma como uma criança irá lidar com os processos de transição é definida em uma via de mão dupla, onde influenciam as representações criadas pela criança no decorrer de sua trajetória, assim como será influenciada pelas representações que seu meio social tem sobre a fase pela qual ela está passando ou irá passar.

Este processo de ansiedade vivenciado pelos pais e pela criança podem acarretar dificuldades de aprendizagem, de adaptação, de construção de vínculos e desequilíbrios comportamentais que podem gerar desconforto e sofrimento para todos os atores envolvidos neste processo de transição.

Segundo Le Boulch ( 1987, p.28 ):

A criança de 6 anos que ingressa  na escola elementar acha-se bruscamente confrontada com uma nova situação à qual terá que se adaptar rapidamente.Os problemas com os quais ela vai envolver-se implicam , em muitos casos, uma reconsideração dos hábitos e atitudes anteriores. (...) A situação da criança torna-se ainda mais difícil pela exigência dos pais que se sentem pessoalmente implicados, e até traídos quando seus filhos não chegam ao nível de outras crianças.

Justamente em uma fase, onde de acordo com Le Boulch a criança se encontra em estado de transição do corpo percebido (reprodutor) para o corpo representado (antecipador), gerando assim uma instabilidade comportamental que caracteriza este processo de transição.

Durante o período escolar, seria possível, apoiando-se nas atividades de expressão espontânea, realizadas em grupo, despistar entraves como a inibição, a inseguranças, as dificuldades de comunicação, os atrasos de linguagem. A exploração de situações lúdicas e o trabalho voltado para a imagem do corpo, num clima de segurança criado pela educadora deverá permitir as crianças, vítimas de carências afetivas ou, ao contrário,, superprotegidas, a recuperação de uma parte de seu atraso no plano funcional (...) (LE BOULCH, 1987, p.29 )

Partindo da ideia do campo relaxado, criando uma ponte entre o verbal e o não verbal, na vivência do jogo espontâneo através da prática da metodologia da psicomotricidade relacional enriquecida pela inserção da narrativa estabelecida pela metodologia de Slade, inseridos no âmbito da escola, principalmente da educação infantil, podem servir como recursos mediadores dos processos de desequilíbrio e transição inerentes ao desenvolvimento infantil.

(Trecho do artigo "CONTRIBUIÇÕES DO JOGO DRAMÁTICO PARA PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL, APLICADA EM ALUNOS EM TRANSIÇÃO DA EDUCAÇÃO INFANTIL PARA O ENSINO FUNDAMENTAL.", apresentado como pré-requisito para obtenção de título de pós-graduação em psicmotricidade clínica e relacional da Universidade Candido Mendes/ RJ)

Raphael do Lago Júdice

Pedagogo e Arteterapeuta, pós graduado em Psicomotricidade  Clínica e Relacional.

 

 

Referências:

 

LAPIERRE,André .“Da psicomotricidade relacional à análise corporal”.Curitiba,Editora UFPR,2010.

 

__________________.”O adulto diante da criança de 0 a 3 anos: Psicomotricidade Relacional e formação da personalidade” .Curitiba, Editora UFPR, 2010.

 

LE BOULCH,Jean. “Educação Psicomotora: a psicocinética na idade escolar”. Porto Alegre, Artemed, 1987.

 

PRANDINI,Regina Célia Almeida Rego. “A constituição da pessoa:integração funcional”. In: MAHONEY, Abigail Alavarenga;ALMEIDA, Laurinda Ramalho (orgs). A Constituição da Pessoa na proposta de Henry Wallon.São Paulo: Editora Loyola,2004.

 

SLADE, Peter.”O jogo dramático infantil”.São Paulo, Summus Editorial, 1978.

 

VIEIRA, J. L. Psicomotricidade relacional: A teoria de uma prática. Disponível  em: www.perspectivasonline.com.br/revista/2009vol3n11 , acessado em 23/11/2013.

 

YOZO, Ronaldo Yudi k. “100 jogos para grupos:uma abordagem psicodramática para empresa,escolas e clinicas”. São Paulo, Editora àgora,1996.